Como a nutrição afeta a pele e pêlos do seu animal?

Introdução:

A pele é um grande órgão metabolicamente ativo com uma elevada exigência fisiológica por proteína e outros nutrientes (Watson, 1998). Representa 16% do peso corporal do animal e sua renovação ocorre a cada 22 dias. A administração de um alimento comercial mal formulado ou mal armazenado (alimentos vendidos à granel podem se oxidar e ter contaminação por fungos e pragas) ou ainda de uma dieta caseira desbalanceada, pode causar transtornos cutâneos. Além disso, qualquer anormalidade metabólica ou funcional que afete a capacidade do animal em digerir, absorver ou usar os nutrientes, pode causar desequilíbrios secundários, que podem se manifestar como dermatoses, que são as doenças da pele (Case, 1998). Qualquer desequilíbrio na ingestão de nutrientes rompe a função de proteção da barreira imune cutânea, o que torna o animal mais susceptível às infecções e reações alérgicas. Os sinais clínicos das deficiências dos principais nutrientes abaixo descritos são: descamação, hiperpigmentação,
queda de pêlos, pêlos finos descoloridos e quebradiços, formação de crostas, seborréia, conjuntivite, otite, inflamação e pele avermelhada.

Deficiência de proteína:

A pele tem uma alta necessidade de proteína e energia e os pêlos são constituídos de 95% de proteína. A deficiência de proteína pode ocorrer e afetar a pele se um animal estiver consumindo proteína dietética muito baixa, passando por um estresse fisiológico severo como doença ou gestação e crescimento ou por um período de inanição. As lesões são mais proeminentes em animais jovens e em crescimento, em que as necessidades de proteína são altas, assim como em fêmeas lactantes e gestantes (Outerbridge, 2012; Watson, 1998). Os aminoácidos tirosina e triptofano são essenciais para a síntese de melanina responsável pela pigmentação do pêlo. A síntese de pigmentos nos melanócitos depende do fornecimento de aminoácidos específicos como a fenilalanina, tirosina e a cisteína, que são precursoras da melanina e da feomelanina. Uma dieta deficiente nesses aminoácidos leva ao clareamento de pêlos ou ao avermelhamento de pêlos pretos (Prélaud & Harvey, 2006). Além disso, os animais com deficiência de proteína possuem descamação, perda da pigmentação do pêlo e alopecia (redução parcial ou total de pêlos) irregular. Os pêlos se tornam mais finos e a qualidade geral do pelame se torna pobre, seca, sem brilho e quebradiço (Outerbridge, 2012). Existem guias nutricionais (AAFCO, NRC e FEDIAF) que orientam os profissionais da área em relação às necessidades de nutrientes para cães e gatos de acordo com a fase de vida. De acordo com a AAFCO (2004), os cães adultos necessitam de no mínimo 18% de proteína na matéria seca (MS) do alimento, já na fase de crescimento e reprodução necessitam de, no mínimo 18 a 22% na MS. A necessidade de proteína para manutenção de um gato adulto é de no mínimo 23% e para gatos em crescimento e reprodução é de no mínimo 26% na MS.

Deficiência de ácidos graxos essenciais (AGE):

As principais funções dos AGE são: estrutura da membrana celular, ação anti-inflamatória, manutenção da permeabilidade da barreira cutânea, transporte e metabolismo do colesterol e aumento da função imune. Suas deficiências são observadas em animais que sofrem de má absorção ou que são alimentados com dietas de baixa qualidade, que foram aquecidas ou armazenadas por longo período, dietas caseiras mal formuladas ou em casos em que antioxidantes como a vitamina E estão inclusos em quantidades inadequadas (Prélaud & Harvey, 2006). Os cães e os gatos são incapazes de produzir o ácido linoleico, portanto a fonte dietética é essencial para ambas as espécies. De acordo com o NRC (2006) cães filhotes e em reprodução necessitam de no mínimo 8,5% de extrato etéreo na MS e cães adultos 5,5% e a necessidade diária mínima recomendada para gatos em qualquer fase de vida é de 9% de extrato etéreo na MS e de acordo com a AAFCO (2004), os gatos necessitam de 0,5% de ácido linoleico e de 0,02% de ácido araquidônico na ração. É importante que o balanço entre ácidos graxos n-6 e n-3 esteja na proporção 5:1.

Deficiência de zinco:

O zinco é muito importante em tecidos como a pele, que frequentemente sofre renovação celular. Ele é responsável pela queratinogênese, cicatrização de feridas, modulação imunológica, reação inflamatória e metabolismo da vitamina A. Em filhotes de crescimento rápido que recebem alimentos de baixa qualidade que são deficientes em zinco, dietas a base de cereais ou de soja, com alta quantidade de fitato ou que são suplementadas em excesso
com cálcio (Outerbridge, 2012), a absorção de zinco pode ser inibida pois esses elementos competem com o zinco por sítios de absorção intestinal (Watson, 1998). Os sinais clínicos melhoram em aproximadamente 4 a 6 semanas (Outerbridge, 2012) da correção para uma dieta adequada. De acordo com a AAFCO (2004), os cães precisam de 120 mg de zinco/kg de ração.

Deficiência de vitamina A:

A vitamina A é essencial para manter a integridade dos tecidos epiteliais e é particularmente importante para o processo de queratinização. Tanto a deficiência quanto o excesso de vitamina A pode dar origem a lesões cutâneas (Watson, 1998). De acordo com a AAFCO (2004), os cães necessitam de 5000 UI de vitamina A/kg de ração e gatos adultos necessitam de 5000 UI de vitamina A/kg de ração e gatos em crescimento e reprodução 9000 UI/kg de ração.

Deficiência de vitamina E:

A vitamina E é um antioxidante natural importante para manter a estabilidade das membranas celulares (Watson, 1998). As lesões cutâneas causadas pelo ácaro da sarna demodécica (Demodex canis) têm sido relacionadas com os baixos níveis sanguíneos de vitamina E (Case, 1998).

Deficiência de vitaminas do complexo B:

Estão envolvidas como cofatores em diversos processos metabólicos. Suas deficiências podem ocorrer se o animal possuir enterite, poliúria ou estiver recebendo tratamento prolongado com antibióticos. A mudança mais comum na pele vista nas deficiências de vitaminas do complexo B é a descamação seca com alopecia (Outerbridge, 2012).

Conclusão: O alimento possui um importante papel na saúde de pele e pêlos (Mueller Dethioux, 2008). O alimento deve garantir proteína de boa disponibilidade, ácidos graxos essenciais e boa digestibilidade, o que é mais seguro de se obter em alimentos comerciais. Os alimentos comerciais são os mais indicados para o fornecimento de teores adequados destes e de outros nutrientes, garantindo uma dieta equilibrada e balanceada.

Para saber mais:
ASSOCIATION OF AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS – AAFCO. Official Publications 2004 Association of American Feed Control Officials, 2004.

Case L.P., Carey D.P., Hirakawa D.A. Dermatoses que correspondem à nutrição. In: Nutrição canina e felina: manual para profissionais. 2ª.ed. Mosby: St. Louis p.347-361,1998.

Mueller, R. S.; Dethioux, F. Nutritional dermatoses and the contribution of dietetics in dermatology. In: Pibot, P.; Biourge, V. & Elliott, D. Encyclopedia of Feline Clinical Nutrition. Aimargues:Aniwa SAS. pp.51-71, 2008. National Research Council, NRC. Nutrient requirements of cats and dogs. Washington: National Academy Press, 2006.

Outerbridge, C. A. Nutritional Management of Skin Diseases. In: Fascetti, A. J.; Delaney, S. J. Applied Veterinary Clinical Nutrition, 1ª ed. Wiley-Blackwell, Iowa, p.157-174, 2012.

Prélaud, P.; Harvey, R. Nutricional dermatoses and the contribution of dietetics in dermatology. In: Pibot, P.; Biourge, V. & Elliott, D. Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition. Aimargues:Aniwa SAS. pp.61-95, 2006.

Watson, T. D. G. Diet and skin disease in dogs and cats. The Journal of Nutrition. 128: 2783S– 2789S, 1998.